Imagina essa cena. Plantão cheio. Gente chamando de todos os lados. Um paciente perguntando da medicação, outro reclamando de dor, alguém pedindo “só um minutinho”, o telefone tocando, a campainha disparando, e o corredor com aquela energia pesada de quem sabe que não vai dar tempo de fazer tudo do jeito que deveria.
Aí, no meio disso, alguém solta uma frase que parece até brincadeira. “Coloca 120 por 80 em todo mundo e pronto.” E o pior é que, em alguns lugares, isso vira rotina. Não porque a pessoa não saiba trabalhar. Mas porque a sobrecarga espreme o profissional até ele começar a acreditar que qualquer atalho serve para “sobreviver” ao plantão.
Só que esse atalho não é pequeno. Ele não é inocente. Ele não é “só um número”. Ele é um risco direto para o paciente.
Porque quando você registra uma pressão, você não está preenchendo um campo. Você está dizendo para toda a equipe: “eu medi, eu conferi, e essa informação é confiável”. E o prontuário é isso. Uma cadeia de confiança. Um documento vivo, que passa de mão em mão. A enfermagem registra, o médico lê, o fisioterapeuta considera, o colega do próximo turno se guia, a equipe inteira se apoia naquela linha escrita como se fosse uma verdade clínica.
E quando alguém inventa um “120 por 80” sem medir, não é só uma mentira no papel. É um buraco no cuidado.
Porque, na vida real, nem todo mundo está 120 por 80. Tem paciente que está caindo pressão e ninguém percebe. Tem paciente hipertenso em pico, com risco real, e passa como “normal”. Tem gente entrando em choque, gente desidratada, gente em sepse, gente sangrando por dentro, e o prontuário diz… “normal”. Um normal que foi digitado para fechar uma tarefa, mas que não fecha a conta do corpo humano.
E o mais perigoso: o dano nem sempre aparece na hora. Ele aparece depois. Quando a coisa complica. Quando o paciente piora. Quando alguém pergunta: “Mas não tinha sinal nenhum?” E aí alguém puxa o prontuário e está lá: pressão normal, saturação normal, temperatura normal, tudo bonito, tudo limpinho, tudo “certinho”.
Só que era “certinho” de mentira.
E nisso mora uma crueldade silenciosa. Porque quando o prontuário vira maquiagem, ele não protege ninguém. Ele não protege o paciente. Ele não protege a equipe. Ele não protege o profissional que escreveu. Ele só cria um cenário falso, onde parece que o cuidado foi feito, enquanto a realidade foi atropelada pela pressa.
E deixa eu falar uma coisa com muita clareza, do jeito que precisa ser dito: inventar dado em prontuário é grave. É antiético. Pode virar um problema legal sério. Pode ser entendido como falsidade em documento assistencial. Pode custar um processo. Pode custar um registro. Pode custar uma carreira.
Mas, acima de tudo, pode custar uma vida.
Porque sinais vitais não são “números decorativos”. Pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura, saturação, glicemia… são a linguagem do corpo. É o corpo dizendo: “tem algo errado”, ou “estou segurando”, ou “estou piorando”. É isso que orienta conduta. É isso que muda prioridade. É isso que faz uma equipe correr na hora certa.
E aí vem a pergunta difícil. A pergunta que muita gente evita, porque dói. Se a demanda está impossível, se o plantão está desumano, se o número de pacientes é maior do que a equipe dá conta… o que fazer?
O caminho correto não é fabricar números para parecer que deu conta.
O caminho correto é registrar a realidade com responsabilidade. É anotar o que foi feito, o que não foi possível fazer, o que foi priorizado e por quê. É comunicar a liderança. É pedir apoio. É sinalizar risco. É usar o protocolo de classificação, quando houver. É dizer: “preciso de mais gente”, “preciso de reforço”, “preciso reorganizar a assistência”. É proteger o paciente com verdade, mesmo que a verdade mostre um sistema em falha.
Porque o paciente não é um formulário. É uma vida. E o prontuário não é um campo de preenchimento. É um documento que carrega decisões. E decisões, em saúde, têm consequência.
A enfermagem é ciência. É técnica. É responsabilidade. É compromisso. E compromisso começa no básico. Medir quando dá, registrar corretamente quando mede, e nunca mentir no prontuário para “agilizar”.
Se tem uma coisa que sustenta o cuidado, no meio do caos, é a integridade. Porque pode faltar tempo, pode faltar mão, pode faltar suporte… mas não pode faltar verdade.
E se você está vivendo uma rotina onde estão te empurrando para esse tipo de prática, isso não é “normal”. Isso é um sinal de que algo está errado no processo, na gestão e na segurança do paciente. E precisa ser enfrentado do jeito certo: com registro correto, com comunicação, com protocolos, com suporte — e com a coragem de não transformar a pressa em mentira.
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