Um estudo abrangente, baseado em dados de aproximadamente 10 milhões de crianças brasileiras, confirmou a gravidade da relação entre a Síndrome Congênita do Zika (SCZ) e o desenvolvimento de quadros severos de epilepsia. A pesquisa, publicada originalmente na prestigiada revista Jama Pediatrics, aponta que os pequenos afetados pela síndrome enfrentam um risco de hospitalização por crises epilépticas 34 vezes superior ao de crianças sem a condição.
Conduzido por especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o levantamento acompanhou nascidos entre 2015 e 2018, cobrindo o período do surto da doença no Brasil.
O diferencial da pesquisa: Escala e diversidade
Diferente de estudos anteriores, a análise liderada pelo pesquisador João Guilherme Tedde (Fiocruz Bahia) comparou três grupos distintos para isolar os efeitos do vírus:
- Crianças diagnosticadas com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ);
- Crianças expostas ao vírus no útero, mas que nasceram sem a síndrome;
- Crianças que nunca tiveram contato com o vírus.
Os resultados revelaram que apenas o primeiro grupo apresenta o risco alarmante de internações e óbitos. “Avaliamos crianças de todas as regiões do país, considerando fatores como etnia, condições socioeconômicas e acesso ao SUS”, explicou Tedde.
Além da microcefalia: O perigo invisível
Uma das descobertas mais relevantes do estudo é que a epilepsia grave não atinge apenas crianças com microcefalia. O risco elevado de internação também foi observado em crianças que nasceram com o perímetro cefálico normal ou até aumentado.
Isso sugere que o comprometimento neurológico causado pelo Zika é profundo e pode se manifestar independentemente de sinais físicos evidentes no nascimento. O estudo enfatiza que:
- O risco de hospitalização é crítico nos primeiros quatro anos de vida.
- A exposição ao vírus durante a gestação, por si só (sem o desenvolvimento da síndrome), não aumentou as chances de epilepsia na amostra analisada.
- Crianças com SCZ possuem uma taxa de mortalidade maior em decorrência das complicações dessas crises.
O desafio do Sistema Único de Saúde (SUS)
Os achados da Fiocruz acendem um alerta para as políticas de saúde pública. A recorrência de internações exige que o sistema esteja preparado para oferecer um acompanhamento neurológico contínuo e especializado.
Para os pesquisadores, o controle das crises e a reabilitação precoce são essenciais para evitar mortes evitáveis e melhorar a qualidade de vida dessas famílias. “É vital que existam linhas de cuidado bem definidas para lidar com as sequelas de longo prazo”, reforça o líder da pesquisa.
Além do tratamento médico, o estudo destaca a necessidade de apoio psicológico aos cuidadores, que enfrentam uma rotina de estresse emocional e físico devido às internações frequentes de seus filhos.
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