POR QUE DENTRO DA ENFERMAGEM EXISTE TANTA INIMIZADE?

A pergunta “por que dentro da Enfermagem existe tanta inimizade?” aparece com frequência em plantões, grupos de profissionais e conversas de corredor. E, na prática, ela quase sempre nasce do mesmo lugar: desgaste, pressão e convivência intensa em ambientes críticos.

Sou Raimundo Renato da Silva Neto, enfermeiro há 20 anos, e escrevo este texto com base em experiência real. Não importa se você trabalha em hospital, UPA, UBS, centro cirúrgico, clínica ou UTI: onde existe equipe, rotina pesada e cobrança constante, também existe risco de conflito. O ponto não é aceitar isso como normal. O ponto é entender as causas para mudar o cenário.

Por que conflitos são tão comuns na Enfermagem

A Enfermagem é uma profissão de grupo. Quase tudo depende de equipe: passagem de plantão, divisão de tarefas, resposta rápida a intercorrências, comunicação com médicos, famílias e outros setores. Quando uma equipe funciona bem, o cuidado flui. Quando a equipe está fragilizada, a tensão cresce e a inimizade aparece.

Sobrecarga e exaustão emocional no plantão

Um dos maiores combustíveis para a “inimizade” é o cansaço. Plantões puxados, equipe reduzida, pacientes graves, múltiplas demandas e tempo curto diminuem a tolerância das pessoas. Nesses momentos, qualquer ruído vira briga: uma fala atravessada, uma cobrança mal feita, um erro pequeno, uma tarefa esquecida.

Quando o corpo e a mente estão no limite, a comunicação tende a ficar seca, a paciência diminui e a empatia encolhe. Isso não justifica atitudes tóxicas, mas explica por que elas ficam mais frequentes em ambientes de pressão.

Trabalho em equipe exige liderança — e é aí que o problema nasce

Na minha experiência, a raiz mais comum do conflito é a liderança fraca ou mal preparada. Toda equipe precisa de uma liderança clara e justa. E liderança, aqui, não é autoritarismo. Liderança é:

  • organizar o fluxo do setor
  • distribuir tarefas com equilíbrio
  • orientar quem é novo
  • corrigir sem humilhar
  • proteger a equipe do caos
  • garantir segurança do paciente

Quando o enfermeiro não está capacitado para liderar, surgem lacunas. E lacunas viram disputa. A equipe perde referência, as pessoas começam a “se organizar sozinhas”, aparecem panelinhas e o plantão vira um campo de tensão.

O conflito entre experiência e autoridade técnica

Outro fator comum é a disputa entre experiência e comando. Em muitos serviços, há técnicos e auxiliares com muita vivência, que conhecem o setor profundamente e, muitas vezes, seguram a rotina em momentos críticos. Isso é valioso e precisa ser respeitado.

Mas o problema começa quando essa experiência vira disputa de poder: profissionais experientes passam a querer “mandar” na equipe, desautorizando o enfermeiro, criando regras paralelas e alimentando conflitos.

Isso gera um cabo de guerra:

  • o enfermeiro se sente desautorizado e pressionado
  • o técnico se sente não reconhecido e injustiçado
  • o setor se divide
  • o paciente sente o impacto

O resultado é um ambiente instável, onde todo mundo trabalha tenso.

Fofoca e comunicação indireta: o veneno silencioso

Quando falta diálogo direto e postura profissional, surge o caminho mais fácil: falar pelas costas. A fofoca cria alianças rápidas, mas destrói confiança. E onde não há confiança, ninguém pede ajuda, ninguém tira dúvida e ninguém aprende.

Na Enfermagem, isso é perigoso. Dúvida não pode virar vergonha. Erro não pode virar espetáculo. E crítica não pode virar humilhação.

Falta de reconhecimento e competição por espaço

Em muitos locais, o reconhecimento é raro. E quando o reconhecimento é escasso, algumas pessoas passam a competir por visibilidade, escala melhor, preferência da chefia ou “espaço” no setor. A equipe deixa de ser time e vira arena.

A competição interna enfraquece a categoria. E, no fim, quem ganha com a Enfermagem dividida é o sistema que explora.

Como reduzir a inimizade e fortalecer a equipe

A mudança não acontece só com discurso. Ela acontece com postura, rotina e liderança.

  1. Liderança firme e justa
    O enfermeiro líder precisa ser referência: claro nas regras, equilibrado nas decisões e respeitoso na correção. Onde há justiça, o conflito diminui.
  2. Experiência como apoio, não como disputa
    Técnicos e auxiliares experientes são pilares do setor. Quando ajudam a orientar, apoiar e ensinar, a equipe cresce. Quando disputam comando, o setor adoece.
  3. Comunicação direta e profissional
    Corrigir é necessário. Humilhar não. Equipe madura conversa de forma objetiva, sem ironia, sem exposição e sem agressividade.
  4. Cultura de cooperação
    Ajudar colega não gera concorrência. Gera segurança, proteção e qualidade no cuidado. Plantão não é lugar de “cada um por si”.

A Enfermagem não pode adoecer por dentro

Conflitos vão existir. Isso é humano. Mas inimizade constante não pode ser tratada como destino. A Enfermagem já enfrenta desafios demais para ainda lutar internamente.

Se existe uma verdade que 20 anos de profissão me ensinaram, é esta: quando a equipe se divide, todo mundo perde. Quando a equipe se une, o cuidado melhora, o plantão fica mais seguro e a categoria se fortalece.

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