O mundo possui, pela primeira vez na história, as ferramentas necessárias para erradicar um tipo de câncer. A afirmação é de Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçada pela renomada pesquisadora brasileira Luisa Lina Villa. No entanto, para que o câncer de colo do útero deixe de ser uma ameaça, o desafio agora não é apenas médico, mas informacional.
Em entrevista à ONU News, a Dra. Luisa Villa, diretora do Laboratório de Inovação do Icesp e professora da USP, destacou que a comunicação popular é o pilar que falta para converter ciência em sobrevivência.
Um drama que atinge mulheres jovens
Diferente de outros tumores que surgem em idades avançadas, o câncer de colo do útero — causado majoritariamente pelo vírus HPV — atinge mulheres no auge de sua vida produtiva e familiar, frequentemente entre os 40 e 45 anos.
- Mortalidade global: Cerca de 300 mil mortes anuais.
- Cenário no Brasil: O Inca estima 17 mil novos casos por ano.
- Desigualdade regional: A incidência no Brasil é três vezes maior que em países desenvolvidos, com situações mais críticas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O impacto da desinformação na vacinação
A vacina contra o HPV é uma das formas mais eficazes de prevenção, protegendo contra cânceres de colo do útero, ânus, pênis e garganta. Contudo, a cobertura vacinal no Brasil sofreu quedas devido a fake news e medos infundados sobre efeitos colaterais.
“Precisamos traduzir o conhecimento científico para uma linguagem que a população entenda”, defende a pesquisadora. Ela ressalta que eventos como desmaios, muitas vezes associados à vacina por famílias, já foram cientificamente desmentidos como reações adversas graves, mas a dúvida plantada pela desinformação ainda afasta jovens dos postos.
Estratégias de Eliminação: Vacina e Rastreamento
A estratégia para eliminar a doença baseia-se em dois pilares fundamentais:
- Imunização Precoce: Como a vacina é preventiva, deve ser aplicada antes do início da vida sexual. No Brasil, o foco são crianças e adolescentes, além de grupos prioritários como pessoas com HIV e pacientes oncológicos.
- Rastreamento (Papanicolau e Testes de HPV): Para mulheres adultas, o exame periódico é essencial. Quando detectada no início, a doença tem altíssimas chances de cura. O problema no Brasil é que, em áreas pobres, o diagnóstico ainda acontece em estágios terminais.
O apelo pela equidade na saúde
Luisa Villa, que estuda o HPV há mais de quatro décadas, reforça que a luta não é apenas por quem ainda não adoeceu. É necessário garantir tratamento digno e cuidados paliativos para aquelas que já enfrentam a doença em estágio avançado.
Atualmente, 162 países já adotam a vacina em seus calendários nacionais, mas a meta da OMS de eliminação total exige que as taxas de cobertura subam drasticamente em todo o globo.
“Não podemos deixar ninguém de fora. Da menina que recebe a vacina à mulher que precisa de tratamento, todas merecem o melhor que a medicina pode oferecer”, conclui a especialista.
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