Mesmo descrita pela medicina desde o século XIX, a endometriose segue como uma doença crônica que afeta de forma profunda a vida de milhões de mulheres no Brasil. Estima-se que mais de 7 milhões de brasileiras convivam com a condição, que, apesar de benigna, pode provocar dor intensa, infertilidade e limitações significativas no dia a dia.
Diante desse cenário, o Hospital Biocor, da Rede D’Or, participa de um estudo clínico que pretende analisar de forma ampla como a endometriose interfere na qualidade de vida das mulheres, desde o início dos sintomas até o tratamento.
Diagnóstico tardio ainda é um dos maiores desafios

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, cresce fora dele, atingindo órgãos como ovários, trompas, intestino e bexiga. Essa condição pode provocar dores pélvicas intensas, cólicas menstruais fortes, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias, além de dificuldade para engravidar.
Um dos principais problemas relacionados à endometriose é o atraso no diagnóstico. Estudos indicam que mulheres com a doença podem levar entre cinco e doze anos para receber um diagnóstico correto, passando por diversos profissionais de saúde ao longo desse período.
Entre os fatores que explicam essa demora estão a normalização da dor menstrual, a falta de especialistas com experiência no manejo da doença, a automedicação frequente, o desconhecimento das opções terapêuticas e experiências negativas anteriores no sistema de saúde. Vergonha e constrangimento também contribuem para o adiamento da busca por ajuda médica.
Impactos vão além da dor física
A endometriose não afeta apenas o corpo. A doença pode comprometer a saúde mental, a vida sexual, os relacionamentos, o desempenho escolar e profissional, além de limitar a participação em atividades cotidianas. Muitas mulheres relatam queda na produtividade, afastamentos do trabalho e prejuízos emocionais associados à dor crônica.
Por não ter cura até o momento, a endometriose exige acompanhamento contínuo e tratamentos individualizados, adaptados às características e aos objetivos de vida de cada paciente.

Estudo avalia jornada e qualidade de vida das pacientes
Para compreender melhor essas repercussões, o Biocor desenvolve o estudo “Tradução, Aculturação e Validação para o português do Brasil do Endometriosis Impact Questionnaire (EIQ)”. A pesquisa é realizada em parceria com a USP de Ribeirão Preto, a Unesp de Botucatu e a Unicamp.
O trabalho é coordenado pela ginecologista Márcia Mendonça Carneiro, médica do Biocor e professora titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da UFMG.
Questionário analisa diferentes dimensões da vida da mulher
O EIQ foi criado por pesquisadores australianos e já conta com autorização para uso no Brasil. O instrumento reúne 63 perguntas que avaliam seis dimensões da vida das mulheres com endometriose: aspectos físicos, psicológicos, sexuais, reprodutivos (fertilidade), educacionais e profissionais.
A validação do questionário para a população brasileira permitirá mapear de forma mais precisa como a doença impacta diferentes áreas da vida, contribuindo para a criação de estratégias de cuidado mais eficazes.
Pesquisa pode ajudar a melhorar o cuidado e reduzir prejuízos

Segundo os pesquisadores, compreender a trajetória das mulheres com endometriose é fundamental para reduzir o tempo até o diagnóstico, melhorar o tratamento e minimizar os danos físicos, emocionais e sociais causados pela doença.
Além de afetar diretamente as pacientes, a endometriose também representa um problema de saúde pública, gerando custos elevados para os sistemas público e privado, além de perdas econômicas relacionadas ao absenteísmo e à queda de produtividade.
O diagnóstico precoce, aliado a um tratamento individualizado e eficaz, pode reduzir significativamente os impactos da endometriose e permitir que as mulheres tenham uma vida mais plena e saudável.
O post Estudo aponta desafios enfrentados por mulheres com endometriose apareceu primeiro em Sou Enfermagem.
