A defesa da técnica de enfermagem Amanda Rodrigues de Souza, de 28 anos, veio a público nesta semana para rebater as acusações relacionadas às mortes de três pacientes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital particular em Taguatinga, no Distrito Federal. Amanda está presa temporariamente junto com outros dois profissionais de enfermagem, suspeitos de envolvimento direto ou indireto nos crimes investigados pela Polícia Civil do DF.
A manifestação ocorre após a Justiça negar o pedido de prisão domiciliar, apresentado anteriormente pela defesa, que alegava a necessidade de Amanda cuidar da filha menor de idade. Segundo a decisão judicial, não houve comprovação suficiente de que a presença da investigada em casa seria indispensável para os cuidados da criança, o que levou ao indeferimento do pedido.
Troca de advogado e nova estratégia de defesa
Após a negativa da Justiça, Amanda decidiu substituir seu advogado e contratou uma nova defesa, que convocou uma coletiva de imprensa para apresentar sua versão dos fatos. Durante a coletiva, o novo advogado afirmou que Amanda nega qualquer participação ou conhecimento prévio das mortes, atribuindo a responsabilidade exclusiva ao técnico de enfermagem Marcos Vinícius, apontado pela investigação como o principal autor dos homicídios.
De acordo com a defesa, as provas apresentadas até o momento seriam “precárias e seletivas”, baseadas principalmente em prints de imagens de câmeras de segurança, e não em vídeos completos. O advogado sustenta que a simples presença de Amanda no ambiente da UTI não pode ser interpretada como envolvimento em conduta criminosa.
Imagens da UTI e questionamentos sobre as provas
Um dos principais pontos levantados pela defesa diz respeito às imagens que, segundo a polícia, vinculam Amanda aos crimes. O advogado argumenta que trabalhar na UTI naturalmente implica aparecer nas gravações, e que os registros divulgados não mostram qualquer ato concreto que comprove participação ativa nas mortes.
A defesa também afirma que movimentos observados nas imagens — como olhar para monitores, manusear equipamentos ou virar o rosto — são compatíveis com a rotina normal de um profissional de enfermagem, não configurando prova de auxílio ou concordância com atos ilícitos. Para o advogado, seria necessária uma prova técnica substancial, com correlação clara entre o tempo das ações de Marcos Vinícius e uma eventual conduta dolosa de Amanda.
Posição da Polícia Civil
A Polícia Civil do Distrito Federal, no entanto, sustenta que o material divulgado à imprensa representa apenas uma pequena parte do conjunto probatório. Segundo os investigadores, há vídeos completos da UTI, apreensão de celulares, documentos e outros elementos que embasam a prisão temporária dos três suspeitos.
De acordo com a polícia, Marcos Vinícius teria sido flagrado pelas câmeras invadindo o sistema de prescrição médica, retirando medicamentos da farmácia do hospital, escondendo-os no jaleco e aplicando substâncias letais diretamente nas veias dos pacientes. A investigação aponta que, em ao menos um dos episódios, duas técnicas de enfermagem teriam permanecido próximas, possivelmente dificultando a visualização do que ocorria por outros profissionais, o que levou a polícia a tratá-las como coautoras ou colaboradoras.
O delegado responsável pelo caso informou que o inquérito ainda está em fase de apuração, com análise detalhada do HD das câmeras de segurança para reconstruir a linha do tempo completa dos fatos.
Relacionamento pessoal e alegação de manipulação
Outro ponto destacado pela defesa é o relacionamento pessoal entre Amanda e Marcos Vinícius, que teria começado meses após ambos ingressarem no hospital. Segundo o advogado, Amanda afirma ter sido manipulada emocionalmente, descrevendo Marcos como uma pessoa mentirosa e controladora, que ocultava informações sobre sua vida pessoal, incluindo o fato de ser casado.
A defesa sustenta que esse contexto é relevante para a investigação, pois indicaria uma relação de poder e influência psicológica, afastando a tese de participação consciente e voluntária nos crimes.
Internação da investigada e novos questionamentos
O advogado também revelou que Amanda passou por uma cirurgia bariátrica, apresentou complicações infecciosas e chegou a ser internada na própria UTI do hospital, onde teria passado mal após receber medicação aplicada por Marcos Vinícius. Segundo o relato, uma enfermeira-chefe teria intervido, recolhido o material e feito críticas abertas à conduta de Marcos, vindo posteriormente a pedir demissão do hospital.
Esse episódio, segundo a defesa, reforçaria a necessidade de aprofundamento das investigações e poderia indicar que outros profissionais já desconfiavam da atuação de Marcos antes da descoberta oficial dos crimes.
Hospital se posiciona como vítima
O Hospital Anchieta, onde ocorreram as mortes, não é alvo da investigação criminal. A instituição se posiciona como denunciante e vítima, afirmando que identificou irregularidades por meio de sua comissão de óbitos e encaminhou imediatamente o caso às autoridades policiais. Os três técnicos de enfermagem envolvidos foram demitidos, e o hospital afirma ter colaborado integralmente com a investigação.
A defesa de Amanda, contudo, levanta questionamentos sobre possíveis falhas institucionais, como o acesso de Marcos Vinícius a sistemas médicos por meio de logins de terceiros, tema que deverá ser debatido no curso do processo.
Próximos passos do caso
A defesa informou que pretende recorrer da prisão temporária, buscar acesso integral aos autos — atualmente sob sigilo — e ingressar com pedido para que Amanda responda ao processo em liberdade. Paralelamente, a Polícia Civil segue priorizando o encerramento do inquérito das três mortes já confirmadas, sem descartar a possibilidade de outras vítimas em locais onde os investigados tenham trabalhado anteriormente.
O caso segue sendo acompanhado de perto pelas autoridades, pelo Ministério Público e pelas famílias das vítimas, que aguardam respostas sobre o que pode se tornar um dos episódios mais graves já registrados dentro de uma UTI hospitalar no Distrito Federal.
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