Uma descoberta liderada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) está mudando o que a ciência sabe sobre a história das doenças sexualmente transmissíveis. Através de análises genômicas avançadas, a equipe identificou a presença do HPV16 — um subtipo de alto risco para o desenvolvimento de câncer — em múmias congeladas, incluindo o famoso “Ötzi, o Homem de Gelo”.
Os resultados, publicados em versão pré-print na plataforma bioRxiv, sugerem que o papilomavírus humano acompanha a nossa espécie há muito mais tempo do que se imaginava, possivelmente há mais de 60 mil anos.
O HPV e os humanos: Uma parceria milenar
Até então, uma das teorias científicas mais aceitas era de que o HPV teria sido transmitido aos humanos modernos através do cruzamento com neandertais. No entanto, os achados brasileiros contestam essa tese.
“Os resultados indicam que o HPV16 está associado a humanos anatomicamente modernos bem antes das divisões populacionais fora da África”, explica o pesquisador Marcelo Briones, um dos autores do estudo.
As múmias analisadas:
- Ötzi (O Homem de Gelo): Encontrado nos Alpes europeus, viveu há cerca de 5.300 anos. O vírus nele encontrado é ancestral do subtipo predominante hoje na Europa.
- Homem de Ust’-Ishim: Descoberto na Sibéria, viveu há impressionantes 45 mil anos. Nele, foi detectada uma linhagem ligada a populações euroasiáticas antigas.
Como a descoberta foi feita?
A equipe da Unifesp utilizou tecnologia de ponta para “garimpar” o código genético dos fósseis. Foram analisadas mais de 5,7 bilhões de leituras de sequenciamento. Os cientistas testaram a presença de diversos patógenos, mas a cepa HPV16 foi a que apresentou os resultados mais sólidos e consistentes.
A reconstrução do genoma viral permitiu confirmar que a infecção não era uma contaminação moderna (ocorrida após a descoberta dos corpos), mas sim algo que já estava preservado nos tecidos por milênios.
O que isso muda na medicina?
Embora não seja possível afirmar se o vírus já causava câncer de colo do útero ou outras lesões graves na pré-história, a descoberta prova que o HPV evoluiu junto com a humanidade.
O HPV16 é conhecido hoje por ser um dos principais responsáveis por tumores genitais. Entender como ele se comportava há 45 mil anos ajuda cientistas a compreenderem a evolução viral e a capacidade de adaptação do patógeno ao sistema imunológico humano.
Prevenção atual
Hoje, o cenário é diferente do tempo de Ötzi. A ciência moderna oferece armas eficazes contra o vírus:
- Vacinação: O SUS oferece a vacina gratuitamente para jovens.
- Exames de rotina: O Papanicolau ajuda a detectar lesões precoces.
- Uso de preservativo: Fundamental para reduzir o risco de transmissão.
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